Todas às vezes que um avanço nos resultados de produção de conteúdo por Inteligência Artificial (IA) é divulgado, a mesma discussão volta à tona: nossos empregos estão com os dias contados?
Nas últimas semanas, vi um crescimento significativo das discussões em torno de plataformas como v0, Cursor e Loveless. Do outro lado, um verdadeiro enxame de publicações de artistas reagindo à viralização de imagens no estilo Ghibli, geradas pelo ChatGPT.
A dúvida é legítima. Mas será mesmo que a tecnologia vai extinguir nossas profissões?
Passei os últimos finais de semana testando os limites do que conseguimos fazer com as IAs atuais. E, a partir disso, quero compartilhar minha perspectiva sobre o tema.
A mudança é inevitável, evolução, entretanto, opcional
Frase de Tony Robbins em uma tradução livre.
Durante diversos momentos da história moderna, a raça humana se atualizou tecnologicamente. E isso mudou completamente como algumas profissões atuam. Mas uma coisa posso afirmar com tranquilidade: a necessidade por profissionais excelentes nunca desaparece.
Na minha visão, são os profissionais medianos (ou abaixo da média) que correm mais riscos. Sempre foi assim.
A humanidade avança. Profissões deixam de existir, e outras nascem.
Exemplos não faltam:
- Com a prensa de Gutenberg, os copiadores de livros sumiram.
- Com os automóveis, os cocheiros perderam espaço.
- Com a internet, quantas locadoras de vídeo fecharam?
E, mesmo assim, em todos esses contextos, os melhores seguiram relevantes:
- Ainda existem especialistas em caligrafia.
- Motoristas continuam existindo.
- Influencers de cinema são uma das categorias mais antigas da internet, com blogs e canais dedicados desde os anos 2000.
Não é o fim do trabalho — é o fim do repetitivo
O que está desaparecendo são as tarefas repetitivas. E isso vale para todas as áreas.
Na minha trajetória, conheci profissionais que passavam o dia inteiro transferindo dados de uma planilha para outra. Esse tipo de função não tem mais razão de existir.
O mesmo vale para certas produções visuais ou de código. Se você só replica estilos de desnhos em fotos, faz CRUD sem pensar em UX, ou não pensa constantemente em formas de entregar um trabalho melhor, sinto dizer: seus dias estão contados.
E isso não é ruim. O mercado está exigindo um nível mais alto de entrega — mais criativo, mais estratégico, mais humano.
A IA ainda não tem alma (e talvez nunca tenha)
Citando uma publicação do artista de quadrinhos @rafaelmarcal, que criticou o uso de IAs para aplicar estilos de artistas reais em fotos:
“Olhando as imagens como arte e não só como produtos, percebemos que estanca o desenvolvimento da arte. Pasteuriza tudo e fica tudo igual. Se acaba os ilustradores reais, as máquinas vão se alimentar só do que já existe e só aí vão perceber que ela não cria nada.”
O Rafa tem razão. A IA ainda não tem criatividade genuína — ela é uma excelente imitadora. Mas sejamos sinceros: nem todo profissional entrega algo único. A maioria das pessoas apenas repete, faz o que mandam, sem refletir.
Eu adoro quadrinhos. Mas o que mais me atrai são as histórias. A arte é o meio de expressão, mas o conteúdo — a emoção, a construção narrativa — é o que me prende. Reproduzir uma foto com um estilo diferente não é arte por si só, seja feita por humanos ou IA. Arte é expressão. E isso a IA continua longe de fazer.
A demanda por profissionais criativos vai aumentar
Sim, alguns tipos de trabalho vão desaparecer. Mas outros vão se multiplicar.
Um exemplo que me marcou foi o caso de uma animação (não me recordo qual) que precisou ser simplificada porque seria inviável produzir episódios na velocidade necessária com o nível de detalhe original. Hoje, com IAs, esse problema pode ser superado. A tecnologia nos permite escalar a produção de conteúdo criativo com mais qualidade.
Equipes de desenvolvimento com 10 pessoas que antes não davam conta da demanda podem ser mais produtivas com IA — ou até reduzidas. Vai sobreviver quem conseguir usar bem a tecnologia para potencializar seu trabalho.
Testando os limites da IA: o que ainda não funciona?
Testando as IAs nos últimos fins de semana, percebi uma coisa clara: só deu certo quando eu sabia exatamente o que queria fazer.
E convenhamos, na minha experiência essa é uma das partes mais difíceis do trabalho de um desenvolvedor — entender o que o cliente quer e transformar isso em algo funcional e valioso. A IA não resolve isso por você.
Para gerar um site, precisei dar comandos extremamente claros e no fim recebi algo extremamente genérico. Para criar uma série de quadrinhos, tive que escrever o roteiro com detalhes. Mesmo assim, vi a IA alucinar várias vezes quando a cena era mais complexa.
Isso me mostrou que o trabalho intelectual, de entendimento, de visão criativa, ainda é insubstituível.
Conclusão: quem não usar IA, vai ficar para trás
A IA não vai acabar com todas as profissões. Mas ela vai transformar profundamente como trabalhamos. O profissional que ignorar esse movimento vai ficar obsoleto.
Para desenvolvedores, a IA vai automatizar boa parte do trabalho repetitivo.
Para artistas, uma vez que os conceitos de uma série, os detalhes de um personagem forem definidos, vai facilitar transformar esboços em artes finais detalhadas.
Estamos com os dias contados?
Sim — os dias de fazer só o básico.